domingo, 28 de fevereiro de 2010

Chove. Há Silêncio





Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Flores


Se com flores se fizeram revoluções
que linda revolução daria este canteiro!





Quando o clarim do sol toca a matinas
ei-las que emergem do nocturno sono
e as brandas, tenras hastes se perfilam.
Estão fardadas de verde clorofila,
botões vermelhos, faixas amarelas,
penachos brancos que se balanceiam
em mesuras que a aragem determina.
É do regulamento ser viçoso
quando a seiva crepita nas nervuras
e frenética ascende aos altos vértices.

São flores e, como flores, abrem corolas
na memória dos homens.

Recorda o homem que no berço adormecia,
epiderme de flor num sorriso de flor,
e que entre flores correu quando era infante,
ébrio de cheiros,
abrindo os olhos grandes como flores.
Depois, a flor que ela prendeu entre os cabelos,
rede de borboletas, armadilha de unguentos,
o amor à flor dos lábios,
o amor dos lábios desdobrado em flor,
a flor na emboscada, comprometida e ingénua,
colaborante e alheia,
a flor no seu canteiro à espera que a exaltem,
que em respeito a violem
e em sagrado a venerem.

Flores estupefacientes, droga dos olhos, vício dos sentidos.

Ai flores, ai flores das verdes hastes!
A César o que é de César. Às flores o que é das flores.

António Gedeão

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Blasted Mechanism


Contempla!
Torna-te a Luz, torna-te o Som.
Tu és o teu Mestre e o teu Deus.
És TU PRÓPRIO o objecto da tua busca.
Rende-te… à VOZ DO SILÊNCIO.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Olha de novo:...



Olha de novo: não existem brancos, não existem amarelos, não existem negros: somos todos arco-íris. Ulisses Tavares

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Se o amor tivesse cor



Se o amor tivesse cor


Metade seria negro

Metade seria branco...

Ora dominante
Ora submisso…


Num contraste perfeito!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Solidão


Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!
Juan Ramón Jiménez